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“A violência, seja qual for a maneira como ela se manifesta, é sempre uma derrota.” – Jean Paul Satre

A data era 24 de agosto de 1572. A hora: algum momento após a meia-noite. O local: Paris, França. Você era mais um huguenote (um tipo de cristão protestante). Você e sua família dormiam um sono tranquilo, sabendo que, há dois anos, a rainha católica Catarina de Médici havia assinado um tratado de paz entre católicos e protestantes. Mas a noite é rompida pelos gritos de desespero dos vizinhos. Um genocídio estava ocorrendo e os alvos: os huguenotes. Parece o início de um filme de suspense? Pois bem, a história real pode ser mais assustadora. Ficou conhecido como o Massacre do dia de São Bartolomeu. Um relato descreve o resultado da matança: as águas dos rios foram tão contaminadas com os cadáveres humanos que ninguém comia peixe.
A verdade é que dar exemplos de violências cometidas em nome de ideologias é assustadoramente fácil. Porém, o que mais me preocupa e envergonha são os crimes cometidos em nome do cristianismo, justamente a religião conhecida pela “regra áurea do amor”. E o mais frequente é que os abusos da ideologia cristã são (ou pelo menos se iniciam) sutis. Por isso, acredito que todos os cristãos devem pensar de maneira honesta sobre esse assunto. Como um cristão se torna um fanático? Apenas questões psicológicas estão envolvidas? Como evitar esse mal? Será que Jesus tem algo a dizer sobre isso?
Antes de estudarmos um fascinante episódio contido nos evangelhos, vou partir do princípio de que a veracidade de uma religião ou filosofia não pode ser rejeitada pelos seus abusos. Assim, não é o valor dos ensinos centrais de Jesus Cristo que estão em jogo, e sim a maneira como estão sendo aplicados por aqueles que dizem segui-Lo.
E o que Ele ensina? O capítulo 8 do evangelho de João conta uma passagem interessante sobre Sua vida, onde a sutileza do extremismo é apresentada como pano de fundo. Ao dialogar com um grupo de judeus que aparentavam crer nele (verso 32), Ele diz um de seus ensinamentos mais famosos: “Se vocês permanecerem na minha palavra, serão realmente meus discípulos. E conhecerão a verdade, e a verdade os libertará”. Continuando o diálogo, Jesus expõe que, em seus corações, aqueles “crentes” ainda planejavam matá-Lo.
Aqui cabe uma distinção entre conceitos muito mal utilizados: Fundamentalismo e Fanatismo.
– Fundamentalistas: são pessoas que resgatam e mantêm os fundamentos de sua ideologia. No cristianismo, o termo começou a ser utilizado 1920, para descrever um grupo de cristãos que professavam crenças distintas da Teologia Moderna, que estava ganhando força em alguns segmentos (Alta Crítica e Teologia Liberal).
– Fanáticos: são pessoas com zelo obsessivo por determinada ideia. Elas não toleram o contraditório. Muitas vezes, possuem uma visão estreita da realidade. Alguns possuem diagnósticos de transtornos mentais, mas é muito difícil traçar a origem do fanatismo apenas em termos psicológicos e psiquiátricos.
Como você pode ver, a realidade é que todos nós somos fundamentalistas em algum sentido. O ateu crê e sustenta firmemente o fundamento de que não há nada além da Natureza. O fundamento do hindu é a ideia de que todos são parte do que chamamos de “deus”. O pós-moderno acredita que a Razão é impotente e até desprezível. E mesmo que alguém levante a bandeira da Tolerância, essa pessoa estaria considerando as ideias de respeito e compaixão como absolutas. Toda crença tem fundamentos. E todos cremos em algo.
Da mesma forma, qualquer filosofia pode ter seus adeptos fanáticos. Acho que exemplos aqui são desnecessários. Temos nossa boa porção do dia-a-dia… E quanto aquele grupo de judeus que estavam dialogando com Cristo? O interessante era que tanto Jesus quanto eles professavam a mesma religião. A diferença: Jesus era um fundamentalista. Ele estava buscando resgatar a religião original que havia se perdido em séculos de tradições humanas. Já aqueles homens eram fanáticos que, se dizendo “crentes”, fixaram suas mentes nas tradições e hostilizavam os que não estavam de acordo (Jesus não foi o primeiro “reformador” a ser morto, e também não foi o último).
Discorrendo sobre o impacto desse fanatismo, Jesus explicou que eles não eram crentes de verdade, pois neles “não há lugar para a minha palavra”. Quando busquei a melhor tradução para a expressão “não há lugar” na linguagem original (“chóreó”, no grego), notei que ela se refere a algo saindo para dar lugar a outra coisa. Para que o ensino de Cristo pudesse transformar aquelas vidas, algumas idéias e práticas precisavam ser abandonadas. Mas o ser humano é livre para escolher. Deus nunca forçará ninguém a aceitá-Lo.
Se compreendemos isso, podemos voltar ao que Jesus disse nos versos 31 e 32. “Se vocês permanecerem na minha palavra” significa que, ao estudar a Bíblia, devemos fazer a escolha e permitir que saia do nosso coração aquilo que não combina com Jesus, sendo essa uma decisão a ser reiterada sempre. “Conhecerão a verdade”, mas não em um sentido meramente intelectual, pois o que importa é conhecer a verdade de forma relacional e prática. “E a verdade os libertará” não apenas de filosofias erradas, mas de hábitos nocivos. A verdade tem esse poder, pois não é uma simples ideia. A verdade, em última análise, não é algo, é Alguém (João 14:6).
Me parece que O Maior Fundamentalista da história nos mostrou a fórmula contra o Fanatismo: um estudo prático da Bíblia e um constante relacionamento com Deus. Isso deve ser parte do nosso cotidiano, se desejarmos carregar a bandeira do Cristianismo.
E eu não poderia terminar esse texto sem fazer um convite a você que tomou seu tempo para ler. Caso deseje aprender junto conosco mais sobre Jesus, sobre os ensinos da Bíblia e sobre como se relacionar com Deus, você será muito bem-vindo no programa Identidade, que ocorre todos os sábados às 9 horas. E faça seus planos para permanecer conosco no nosso Código Aberto, onde conversamos sobre temas muito relevantes.
Aqui nós não temos todas as respostas, mas aprendemos a fazer as perguntas certas para a Pessoa certa.

Fernando Monteiro
Olá. Meu nome é Fernando. Sou médico-residente em Psiquiatria. Gosto muito de ler. Meus temas preferidos são: Religião, Filosofia, Cultura, Política e Medicina.

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