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Cristãos também tem depressão?

Ao avaliar uma paciente, os sintomas que apresentava não deixavam dúvidas; Depressão!! Um tipo de doença classificada pela psiquiatria como um transtorno de humor. Isso mesmo, uma doença! Um diagnóstico como esse é  geralmente recebido pelo paciente como uma má notícia. O significado dado por esta paciente, em particular, foi ainda pior, com um grau de sofrimento ainda maior… Na realidade, expressou revolta. Motivo da revolta? A paciente informou que essa doença era incompatível com sua fé cristã. As palavras dela foram “Isso não pode ser verdade! Eu não aceito esse diagnóstico! Deve ter algum erro nisso porque eu sou uma cristã fiel! Repreendo isso!”

A revolta desta mulher expressa, quem sabe, a inquietude ou o pensamento perturbador de muitos cristãos; talvez até de alguns que conhecemos por viverem ao nosso redor… Quem sabe, o seu próprio pensamento. Sim, você que lê essas linhas… Pensamentos do tipo “Como alguém que está em Deus pode ter depressão?” “Um cristão em depressão? Isso não seria falta de fé?” “É um absurdo. Não pode!” “Cristão também têm depressão?”

Precisamos primeiramente entender e aceitar o fato de que vivemos num mundo pecaminoso… portanto, adulterado em relação ao que deveria ser. Um mundo profundamente adoecido. A depressão possui todas as características de uma doença. E é assim classificada pela medicina. Como doença, para se instalar e manifestar, não seleciona características como cor, credo, gênero, classe social ou nível de inteligência.

Como expressão resultante da desordem e do desequilíbrio, é um fenômeno epidêmico e irreversível em nosso mundo e na existência humana. Estatísticas mundiais colocam a depressão como o “grande mal do século”. Mas o que é a depressão? Tem como prevenir? Há algo a fazer quando já se faz presente? A relação com Deus pode alterar algo num quadro depressivo?

A depressão pode ser vista em suas várias faces: química, psicológica, comportamental, espiritual… Gosto e procuro vê-la, sempre que possível, em seu aspecto químico. Porque tudo o que ocorre dentro do organismo humano se expressa quimicamente. Pensamentos, percepção e interpretação dos fatos, emoção/sentimentos, reação fisiológica, comportamentos… são fenômenos que, mesmo recebendo nomes e adjetivos diferentes, acontecem através de uma cascata complexa de reações químicas.

Fatores como: desequilíbrios nutricionais, estresse continuado, expressão genética (capaz de alterar a construção e/ou fluxo hormonal e de neurotransmissores), situações externas interpretadas como perda… são fenômenos com grande capacidade de desencadear uma depressão. Dá prá se ter uma ideia, então, da grande possibilidade de qualquer pessoa, mesmo quando cristão, vivenciar a depressão. Pensar esta doença como uma fragilidade na fé e na relação com Deus é ignorar que temos um corpo que, comparado a uma máquina, pode apresentar defeitos.. que inclusive já veio a este mundo ‘de fábrica’ com ‘defeito’.

Um aspecto importante a considerar é a estreita relação entre o estado químico do organismo e o funcionamento psicológico. Geralmente, a maneira como a mente processa pensamentos, significados e interpretações, está intimamente de acordo com o estado químico do organismo daquele momento. Por exemplo, estado químico de raiva está ligado com pensamentos de raiva… ansiedade e medo, à pensamentos de que algo ruim poderá acontecer… No caso da depressão esse mecanismo pode ser um agravante porque quando a pessoa está quimicamente deprimida – por exemplo, pela alteração funcional da ‘serotonina’ e aumento significativo e continuado do ‘cortisol’ – será muito comum esta pessoa processar pensamentos, julgamentos e significados negativos das situações ao redor e do futuro. E ao negativar suas percepções – sobre si, sobre o ambiente ao redor e sobre o futuro – o estado químico disfuncional se altera ainda mais… num mecanismo de retroalimentação, gerando um ciclo depressivo continuado. A armadilha depressiva está instalada, e o indivíduo vítima da depressão.

Mas talvez você pergunte “mas e a fé do cristão?” Então… é possível afirmar que a depressão afeta negativamente muito mais a fé, do que a fé afeta positivamente a depressão. A bíblia define fé como “a certeza de coisas que se esperam; convicção de coisas que não se vê” (Hebreus 11:1). Dá pra dizer, portanto, que fé é atribuição de verdade a uma ideia. Assim, se envolve ‘certeza e convicção, mesmo não se vendo’, ‘atribuição de verdade’, ‘idéia’… Então, envolve fenômenos mentais, algo sendo processado quimicamente pelo cérebro através de mecanismos celulares complexos, redes de comunicação (sinapses) e neurotransmissores. Portanto, um fenômeno neuro-bioquímico-fisiológico. Até mesmo uma visão distorcida sobre Deus, como um Ser punitivo, rígido, distante… poderá ter uma correspondência emocional de medo, tristeza… alterando quimicamente ainda mais o indivíduo.

Quando o mecanismo “neuro-bioquímico-fisiológico” sofre alteração estrutural e/ou funcional, pensamentos e crenças poderão também sofrer alterações. A fé, então, pode ser abalada quando o indivíduo cristão está em depressão severa. O contrário – influencia positiva da fé contra o estado depressivo – nem sempre ocorre da mesma maneira, principalmente no estágio mais severo da doença. Por que? Porque, sendo a fé, pensamentos e crenças – na realidade fenômenos neuroquímicos – estarão naturalmente em concordância fisiológica com o estado químico disfuncional da depressão.

Mas então a fé em Deus não serve pra nada no estado depressivo? Serve sim! E pode ter grande utilidade no tratamento e remissão desta triste doença. Mas é preciso entender que cada elemento com potencial terapêutico – medicamento, psicoterapia, grupos de apoio, terapia ocupacional, nutrição, atividade física, etc – tem o seu valor, e deverá ser usado no tempo e modo adequados no processo de tratamento. Por exemplo, se a depressão já está instalada e em nível severo – realidade que deverá ser avaliada profissionalmente – o elemento terapêutico adequado poderá ser o medicamento. Mas onde então entraria a fé neste processo? Pode ser habilmente usada numa psicoterapia ou aconselhamento pastoral, buscando uma reestruturação da forma de pensar, de interpretar, de atribuir significados a situações entendidas inicialmente como negativas – gerando restauração e fortalecimento no grau de esperança sobre a vida, as relações… sobre o futuro. A esperança é um elemento antidepressivo poderoso! E se na fé cristã, a esperança é Jesus, então todo Seu legado: o que falou, ensinou e realizou, pode ser ‘medicamentoso’ ao que se encontra em depressão.

A proposta de Jesus ao homem é claramente expressa em Sua palavra: “… Eu vim pra que você tenha vida… em abundância” (João 10:10). Num mundo adoecido, buscar vida abundante é pensar constantemente em prevenção. É no comportamento de prevenção onde o cristão terá as maiores chances de que sua fé contribua fortemente contra as doenças todas, inclusive a depressão. Prevenção inclui estilo de vida saudável: comida, bebida, sono, movimento físico, conexão com o outro, pensamentos e consciência limpa, espírito de ajuda…

O apóstolo Paulo apresenta duas instruções com forte potencial antidepressivo, se for vivido: “… sejam transformados pela renovação da vossa mente…” (Romanos 12:2); “…tudo o que é verdadeiro, tudo o que é honesto, tudo o que é justo, tudo o que é puro… nisso pensai.” (Filipenses 4:8).

Graça e Paz!

Elton Lima
Sou Elton Lima. Psicólogo Clínico e desenvolvo psicoterapia com adultos. Gosto muito também dos temas sobre emagrecimento e qualidade de vida. Gosto de ler, conversar e comer pizza. Encontrei na comunidade Primeira Essência a possibilidade de exercitar o afeto através do encontro com Deus, comigo mesmo e com outras pessoas.

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