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Devo aceitar tudo que me é ofertado?

“Amor Exigente”. Tão epidêmico! Tão nocivo!

Um termo que sinaliza que algo dará errado, pois, mesmo sendo composto por duas palavras pequenas, traz conceitos antagônicos entre si.

De um lado do termo, o AMOR, que traz a ideia de ‘enxergar o outro’… de ‘bem querer ao outro’… de deixar esse outro ‘livre’ em suas escolhas; livre inclusive pra não querer receber o amor de quem oferta. O amor revela a direção do olhar e interesse de quem ama: o outro. Ironicamente algo quase que antinatural ao homem.

Do outro lado do termo a EXIGÊNCIA, que trás a ideia de ‘imposição e controle’ sobre o outro… a ideia do “deve e não deve”, do “tem que e não tem que”. Algo tão familiar e generalizado em cada um de nós! Algo intimamente ligado à maioria de nossas irritações (se não quase todas), pela frustração que vivenciamos quando o mundo ao meu redor não “se move pra me atender”, quando situações e pessoas não atendem nossas necessidades impostas.

“Amor” e “Exigência”, combinadas, têm o poder de gerar construções nocivas e impressões profundas na mente humana, criando inverdades como se fossem ‘verdades absolutas, globais e inquestionáveis’ – talvez seja essa a base mais profunda dos transtornos psicológicos e emocionais no homem pós moderno, influenciando diretamente seu comportamento com o mundo ao seu redor.

Um desses comportamentos disfuncionais e que perpetua o modelo, é a dificuldade que muitos têm de dizer “Não!”. Psicologicamente armadilhados por essa dificuldade, muitos desenvolvem mecanismos de defesa do tipo “autosacrifício” – quando abrem mão de si, de suas opiniões legítimas para agradar o outro na esperança de receber aprovação, validação, afeto; e do tipo “subjugação” – quando também abrem mão de si passando por cima de opiniões pessoais, valores e até princípios, mas para não sofrerem retaliações e punições, como por exemplo a rejeição. Armadilhas psicológicas que se arrastam muitas vezes por toda uma vida…

Aproveitando o convite para escrever sobre “amor exigente”, fiz um exercício pessoal de autoanálise sobre quais as reações internas eu experimentaria, caso dissesse um “não” à oferta recebida para escrever. Foi interessante identificar e constatar alguns ‘fenômenos’ ligados a prováveis ‘marcas’ e ‘rastros’ psicológicos de exigências mas em embalagens falsas de ‘amor’..

Na ideia de falar “não” ao convite, identifiquei imediatamente um pensamento do tipo “e se…?” O pensamento foi “e se ficarem chateados comigo?” Como percebi que este pensamento carregava um grau de tensão interna, com aquele famoso ‘friozinho na barriga’, resolvi pegar esse pensamento como o fio da meada e ir atrás dele pra ver onde iria dar. Encontrei na sequência alguns outros: “se ficarem chateados, então posso ser julgado como errado, como alguém que pode ajudar mas não quer”… “se me julgarem como inadequado posso ser rejeitado”… “se me rejeitarem é porque não sou tão gostável assim”… E a sequência de pensamentos automáticos foi longe, gerando um estado emocional cada vez mais desconfortável e perturbador. Em resumo, cada pensamento e emoção correspondente “confirmava” a presença de marcas na forma de desamor, de insuficiência, de inadequação… na realidade inverdades sobre mim, sobre o meu valor e importância, mas presentes ali na alma como “verdades”. Essa experiência forçada me revelou a possível presença de esquemas internos muito comuns a de muitos, que carregamos em nossa existência. Digo ‘nossa’ porque observo há anos o mesmo fenômeno presente internamente, por trás da queixa, de cada pessoa que, com alguma perturbação, vem conversar comigo.

A pergunta importante aí, é: “O que causou ou causa essas marcas e rastros psicológicos negativos de forma tão epidêmica?” Sei que a resposta é multifatorial, mas estou convencido de que um desses porquês é o modelo de ‘amor exigente’ tão amplamente presente nas relações, modelando crenças, pensamentos e comportamentos com potencial tão nocivo! É provável que algumas de suas perturbações internas estejam modeladas pelas marcas que um ‘amor exigente’ deixou em você, numa época da vida – primeira infância – em que pouco ou quase nada você poderia ter feito como defesa. De lá pra cá, apenas se perpetuou e se confirmou como ‘verdades’.

A presença e marcas do amor exigente faz com que o homem esteja habitualmente muito voltado pra si… buscando se atender em tudo o que toca e faz, mesmo quando aparenta altruísmo. Se eu pudesse desenhar uma forma que representasse o homem em seu padrão ensimesmado de exigência, talvez seria uma pequena cabeça, braços e perninhas presos a um enorme umbigo!

Nietzsche capturou bem essa deficiente realidade do amor humano quando afirmou que não amamos o outro. Na realidade amamos a sensação boa que sentimos na relação com o outro. Amamos então o nosso próprio desejo! Amor exigente, na realidade, não é amor é armadilha; é gaiola; é uma mentira… É construção humana! É uma reprodução do que já fizeram em nós. Portanto, não procede de Deus.

Mas fica a pergunta: “Devo aceitar tudo o que me é ofertado?” E a resposta é, novamente, “depende”… Depende do porquê falo sim ou não; do pra que, falo sim ou não. Se o meu “sim” ou meu “não” estiverem internamente impulsionados por me sentir inadequado, insuficiente, desqualificado… dizê-los será uma forma de perpetuar dentro de mim esses esquemas disfuncionais e, fazendo assim, estarei fortalecendo e reproduzindo essas inverdades através do meu comportamento e nas minhas relações.

Como essas marcas estão presentes em nós já há muito tempo, como registros químicos em nosso banco de memórias emocionais, não tem como apagá-las. O objetivo seria reescrevê-las. Pra isso a sugestão do terapeuta é: 1. sonde e identifique em cada situação de desconforto qual a intenção interna por trás dos seus pensamentos e comportamentos; 2. Se a intenção for buscar validação ou fugir da rejeição, aja na direção oposta do que faria. Em outras palavras, pague pra ver… e você verá que na maioria das vezes o ‘bicho é menos feio do que parece’. Você se perceberá mais fortalecido, com uma sensação interna de liberdade real. 3. Se apresente diante de Deus com o tamanho da tua dificuldade e busque nEle a coragem necessária pra agir dessa maneira. 4. Perdoe verdadeiramente seus pais/ cuidadores por terem equivocadamente moldado você sob um modelo errado de amor. Eles “não sabem o que fazem”, reproduziram o que também receberam…

Abra a porta dessa gaiola… Você foi criado para voar!

Elton Lima
Sou Elton Lima. Psicólogo Clínico e desenvolvo psicoterapia com adultos. Gosto muito também dos temas sobre emagrecimento e qualidade de vida. Gosto de ler, conversar e comer pizza. Encontrei na comunidade Primeira Essência a possibilidade de exercitar o afeto através do encontro com Deus, comigo mesmo e com outras pessoas.

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