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Jardim Secreto: Ansiedade, um problema ou uma solução?

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“Ansiedade é a serva da criatividade.” – T. S. Eliot
“Ansiedade não acaba com as tristezas de amanhã, mas acaba com as forças de hoje.” – Charles H. Spurgeon

Quem nunca teve aquele frio na barriga antes de fazer alguma prova? Ou entrevista de emprego? Ou falar em público? Ou falar de seus sentimentos por alguém?

Todos já experimentamos essa sensação de desconforto físico ou mental com relação a algum evento futuro considerado ameaçador. Isso é o que chamamos de ansiedade. Em psiquiatria e psicologia, porém, o termo se refere mais um componente básico de um grande grupo de doenças, os transtornos de ansiedade. Fazem parte desse grupo: transtorno de ansiedade generalizada, síndrome do pânico, transtorno obsessivo-compulsivo, fobias e transtorno de estresse pós-traumático.

O que a maioria desses quadros tem em comum? Eu diria que é o componente da Antecipação. É um pensamento muito voltado para aspectos futuros. A pessoa foca muito no evento gerador de estresse: o encontro com uma aranha (para quem tem aracnofobia), a próxima crise de pânico, o próximo assalto que vai sofrer. Além disso, tende a ser uma antecipação Negativa, ou seja, o pensamento normalmente é focado em um evento futuro e em suas possibilidades desastrosas. Como se não houvesse possibilidades agradáveis para cada evento desses.

Mas entenda: a ansiedade é boa até certo limite.

Ela pode te manter focado ao estudar para uma prova. Pode te manter animado ao se preparar para uma apresentação. Pode te impulsionar a criar a estratégias para conseguir conquistar aquela vaga de emprego. E ela pode te afastar de situações perigosas e desnecessárias. Ora, se você puder evitar, seria interessante não entrar em contato com uma aranha caranguejeira todos os dias, não é mesmo? Podemos até dizer que pensar nas possibilidades negativas de um evento é importante para fazer o máximo para evitá-las.

O problema começa quando essa antecipação negativa se torna o centro de todo o seu processo de pensamento sobre um evento. O problema piora quando essa antecipação negativa não se baseia em uma realidade plausível ou provável. Nesse ponto, podemos dizer que a ansiedade está disfuncional (perdeu ou mudou a sua função), ela começou a servir como um problema e não mais uma ajuda.

Um exemplo disso ocorreu na minha vida.
Apesar de hoje ser médico, nos anos de faculdade eu possuía uma intensa Traumatofobia. Isso mesmo. Traumatofobia é uma condição onde a pessoa apresenta uma reação anormal (fobia) a “machucados”. Geralmente, essa minha amiguinha se manifestava nos momentos em que eu precisava assistir a alguma cirurgia durante a graduação.

Era sagrado. Bastava eu ver aquela pele sendo rasgada por um bisturi e ouvir aquele barulho de um zíper se abrindo e já começava tudo: respiração ofegante, suor no corpo inteiro e uma deliciosa sensação de que tudo se apagaria e eu acordaria no chão do Centro Cirúrgico. E quanto mais eu tentava não pensar naquilo tudo, mais eu pensava. E mais nervoso eu ficava.

Como isso era ruim! Mas eu precisava vencer. Afinal, como eu poderia perder grande parte da minha formação como médico? Que tipo de médico é esse que nem uma cirurgia consegue ver? Que tipo de médico é esse que não consegue suturar uma ferida? Como isso pode estar acontecendo com o filho de um cirurgião? Esses e outros questionamentos só aumentavam o peso de tudo o que estava acontecendo. Eu precisava fazer alguma coisa.

No início, tentei permanecer durante o maior tempo possível nas cirurgias. Fracasso total. Eu não controlava os sintomas. E eles foram ficando cada vez mais fortes. E aqueles questionamentos também. Na verdade, eu já entrava na sala de cirurgia pensando em todos aqueles sintomas e questionamentos. Seria inevitável. E realmente era…

Até que, com a ajuda de um professor de psiquiatria eu comecei a colocar a casa em ordem. Primeiro, refleti sobre a real importância de tudo aquilo para a minha formação. Chega de pressões. Eu já carregava peso demais. Eu seria um bom médico de uma forma ou de outra. E eu nem queria ser cirurgião mesmo. Meu pai teria que lidar com isso.

Nossa! Ao desafiar essas pressões, me senti muito mais confortável.

Porém, eu ainda precisava de mais. Queria “vencer o medo”. Como fiz isso? Bolamos um plano. Eu tomaria um comprimido de um medicamento simples, barato e muito fraquinho geralmente usado para hipertensão. Esse medicamento teoricamente bloqueia aqueles efeitos ruins que eu sentia (suor, respiração ofegante, tontura). E assim eu poderia assistir a todas as cirurgias que eu quisesse. Mágico! Funcionava perfeitamente. Um comprimidinho meia hora antes da cirurgia e pronto, nada de fobia para o Fernando.

Contudo, o melhor estava por vir. Certo dia eu tive de entrar em uma cirurgia de emergência muito rapidamente, mas eu tinha certeza de que havia tomado o remédinho mágico antes. Então, tudo bem. Eu estava protegido. Fui sem medo, sem ansiedade. Uma cirurgia grande, com muito sangue, vísceras… Eu me sujei tanto que mais parecia uma propaganda de sabão em pó.

Enfim, participei dela inteira sem nenhum problema. Quando ela terminou, eu lembrei com clareza: NÃO, eu não havia tomado o remédio antes. Mas nada aconteceu! Nada havia acontecido. Nenhuma gota de suor, nem uma tonturazinha. Nada.

Naquele momento, me lembrei de uma famosa frase: “Não sabendo que era impossível, ele foi lá e fez” (Mark Twain). Nunca mais usei o tal remédio. E participei de várias cirurgias (mesmo assim, nunca fui tentado a me tornar cirurgião).

Contei para o meu professor de psiquiatria e ele, com um sorriso, me disse: “Esse era o plano desde o início”. Eu precisava descobrir que não era impossível. Eu precisava quebrar aquele ciclo vicioso de ansiedade-fracasso-ansiedade. E foi isso o que aconteceu.

O que eu quero que você aprenda?

Não quero que você saia por aí se medicando. Não quero que você desconsidere as maravilhas que uma boa psicoterapia pode fazer por você. Ela é essencial para tratar transtornos ansiosos.

Mas quero deixar uma mensagem aos meus colegas ansiosos de plantão: Desafie. Desafie esses pensamentos negativos. Desafie essa crença de que tudo será uma catástrofe. Desafie sua mente com uma ideia nova: tudo pode dar completamente certo se você se esforçar o suficiente. E se não der, você fez o seu melhor e nada mais importa. Diminua essas pressões. Você precisa se esforçar, mas sua vida depende muito mais do percurso do que dos resultados. Aceite que você nem sempre pode controlar os resultados, mas eles também não vão controlar você.

Isso não é um mantra. E não é apenas um pensamento positivo. Não é “lei da atração”. Não é subtítulo de livro de autoajuda. Isso é uma mudança de atitude, uma nova maneira de enxergar sua vida e um pilar no tratamento da ansiedade.

Fernando Monteiro
Olá. Meu nome é Fernando. Sou médico-residente em Psiquiatria. Gosto muito de ler. Meus temas preferidos são: Religião, Filosofia, Cultura, Política e Medicina.

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