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Reforma Protestante

Você já refletiu sobre a Reforma Protestante? Será que foi somente uma ação contrária a um sistema religioso, ou algo mais?

Uma das primeiras manifestações reformistas teve início na França, na baixa Idade Média, que convencionalmente chamada de Idade das Trevas, era uma época na qual os cristãos viviam em escuridão de conhecimento, cegados por vãs doutrinas que nem sequer podiam questionar ou examinar nas Escrituras. Pedro Valdo, então comerciante de Lyon, encomendou com custo uma Bíblia traduzida em linguagem popular e passou a ensiná-la ao povo, mesmo não sendo um sacerdote.
Depois de abandonar a vida burguesa, Valdo passou a ensinar que todo fiel deveria ter acesso às Escrituras em sua própria língua e que esta seria a única autoridade inquestionável. Após sua morte em 1217, os Valdenses continuaram se reunindo em matas e grutas, estudando e ensinando a palavra de Deus. Pouco mais de cem depois, surgiu um homem de similares aspirações, John Wycliffe. Professor da Universidade de Oxford, certa vez ele disse: “A verdadeira autoridade emana da Bíblia.”. Fez sua tradução para o inglês e seus escritos não só deram origem ao movimento dos Lolardos, mas influenciaram dois reformadores da Boêmia, João Huss e Jerônimo de Praga. Wycliffe faleceu em 31 de dezembro de 1384 e, quatorze anos após sua morte, Jerônimo copiava suas obras e as apresentava – com entusiasmo – ao seu grande amigo João Huss, mestre em Teologia e pregador em Praga. Jerônimo não escondia sua admiração pela pregação de Huss, que com postura firme e temperamento forte afirmava que qualquer ser humano podia achegar-se a Deus sem a necessidade de um clérigo ou sacerdote terreno.
Também era notória a eloquência e o brilhantismo de Jerônimo. Extremamente sagaz em suas ponderações, propagava os ideais de Wycliffe e Huss com clareza invejável. Ele viu a condenação de seu amigo promulgada pelo Concílio de Constança, em que ambos foram julgados por difundir as obras de Wycliffe. Após sofrimento e tortura no cárcere, João Huss foi queimado vivo em 06 de julho de 1415. Padeceu cantando “Jesus, Filho de Davi, tem misericórdia de mim.”. Com o cântico silenciado pelo fogo, sua voz continuou a ecoar na mente de Jerônimo, que tinha se retratado para livrar-se da morte. Sua consciência não o deixou em paz, e reerguendo-se pediu nova defesa. Com assustadora erudição e sabedoria, pronunciou os mesmos ensinos de seus predecessores. Julgado herege, foi sentenciado ao mesmo fim de seu amigo Huss, e morreu no dia 30 de maio de 1416.
No início da Idade Moderna nasce na Germânia o principal nome da Reforma, Martinho Lutero. Após todo tipo de privação e trabalho servil como monge agostiniano, Lutero tornou-se sacerdote e recebeu o título de Doutor em Teologia em 1512. Portanto e para tanto, teve acesso à Bíblia, e entrou em choque após ver a corrupção e a luxúria dos eclesiásticos, que pregavam doutrinas contrárias aos ensinamentos que nela encontrou. Conhecedor erudito de grego e hebraico aprofundou-se ainda mais nos estudos e na oração até que a sã doutrina tornou-se clara. Lutero pregou incansavelmente na Catedral de Wittenberg. Condenando a simonia, ele afixou em suas portas as 95 Teses da Justificação pela Fé, fundamentando assim os Cinco Solas da Reforma. Traduziu a Bíblia para o alemão em seu refúgio, no castelo de Wartburg, e ali escreveu o hino da Reforma: Ein feste Burg ist unser Gott (Castelo Forte é o Nosso Deus). Ele morreu em 18 de fevereiro de 1546.
A Reforma continuou a crescer, disseminando-se pela Europa e pelo novo mundo, e hoje encontramos milhares de denominações cristãs distintas entre si. Mas seria este o resultado esperado? Embora pareça uma época muito diferente, o centro da questão permanece pertinente e agora nossa realidade mostra-se paradoxalmente a mesma. Uma fé baseada em conjecturas e falácias. Vê-se a teologia da graça barata, do existencialismo e da prosperidade. Ouve-se o que um pastor, sacerdote ou clérigo fala e toma-se isto por verdade. O comodismo que há na falta de examinar a Bíblia continua sobressaindo-se com admirável competência.
Inúmeras vezes nos portamos como os fiéis da Idade das Trevas. Porém, muito pior que não ter a Bíblia para ler é ignorar a luz que emana de seus textos. Quando nos satisfazemos e aceitamos ensinamentos sem a ponderação ou o estudo aprofundado, voltamos a andar como cegos tateantes num mundo obscuro. Ter acesso ilimitado à palavra de Deus não era, e não é privilégio de todos. Não seria imensa sandice ignorarmos tal oportunidade?
A essência da Reforma Protestante não é sobre divergências religiosas, étnicas ou políticas. Não é a respeito da intolerância derivada do egocentrismo desenfreado. Não é resultante da superficialidade cristã ou da inconsistência emocional. A essência da Reforma é a Bíblia. É ter a mente racionalmente renovada por ela todos os dias. É conhecermos a Deus através da busca diária, entendendo que Sua palavra é útil para ensinar e repreender. Ela é maior que qualquer líder ou denominação religiosa. Enquanto não passarmos tempo examinando-a e conhecendo-a, estaremos padecendo em aparência de piedade sem nem ao menos ver a sombra do Deus vivo. Cristo orou por aqueles que ainda viriam a crer em Seu nome afirmando que a Palavra de Deus é a Verdade. Não se trata de protestar contra tudo que você discorda, ou se demorar em assuntos periféricos.

Trata-se do que de fato é a Verdade, e do quanto você a conhece – e a vive.

Renato Mendonça
Casado com uma linda dentista, tento sempre usar o fio dental. Sou estudante e nas horas vagas músico. Queria gostar mais de ler do que gosto de dormir. Na Primeira Essência fiz bons amigos e tenho aprendido mais sobre o significado de amar e servir.

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