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O CRISTÃO QUE PECA

 

“Sou apenas um velho pecador salvo pela graça” (Bill Gaither)

Motivado por questões atuais, eu resolvi escrever esse texto sobre um assunto também polêmico. Por isso, vou quebrar um pouco a nossa série sobre o Amor de Deus. Mas, em algumas semanas, voltaremos com ela.

Uma das questões mais sensíveis para mim pessoalmente sempre foi o estado espiritual do crente que comete pecados “graves”. Será que eles nunca foram crentes de verdade? Ou talvez exista uma forma de “cair da fé”? Será que tais pessoas eram apenas impostoras nos enganando com sua falsa profissão de cristianismo? Existiria salvação para essas pessoas?

Antes de qualquer coisa, abandone essa ideia de que não existe diferença de pecados. Pode até ser que não exista diferença em termos do julgamento final de Deus. E pode até ser que Deus não faça diferença entre as pessoas em si. Mas é quase intuitivo que existem ações com impactos obviamente diferentes do que outras. Quando o pastor Elizaphan Ntakirutimana participou do genocídio em Ruanda, ele não estava cometendo o mesmo ato que você quando mentiu para sua mãe sobre ter faltado àquela aula. Pois bem, mas vamos ao que interessa (abordarei em mais detalhes isso em outro texto).

Como você já deve saber, eu estou longe de ser considerado um teólogo ou filósofo. Mas tenho lido e refletido bastante sobre essas questões e, recentemente, encontrei uma parte dessa resposta em uma das doutrinas mais complexas e, ao mesmo tempo, mais distintivas da Igreja Adventista do Sétimo Dia. Não, não é o Sábado. É a Doutrina do Santuário.

Resumidamente, tal doutrina postula que existe um Santuário real no Céu, onde Jesus Cristo ministra com o sacerdote. Não quero entrar muito em detalhes, pois há necessidade de se explicar muitos símbolos do Antigo Testamento para evitar confusões. Apenas entenda alguns pontos básicos:

  • O pecado (tanto em termos de natureza quanto em termos de ações) coloca um obstáculo em nosso relacionamento com Deus.
  • Todo o serviço do santuário hebreu apresentado no Antigo Testamento é uma espécie de símbolo apontando para a sua realidade em Jesus Cristo.
  • O Sacerdote é um mediador entre Deus e o ser humano.
  • Jesus pode ser o perfeito sacerdote, pois Ele é Deus e Humano (um ser com duas naturezas).
  • Os sacrifícios simbolizavam que o preço pelo nosso pecado exigiria morte.
  • A morte do Homem Perfeito (Jesus Cristo) é o sacrifício final e total necessário para nosso perdão.
  • O serviço no santuário era contínuo e diário.
  • De alguma forma, Cristo continua ministrando em nosso favor todos os dias.

A ideia por trás de toda essa doutrina é que todos nós precisamos urgentemente de um Substituto. Deus nos provê esse Substituto em Seu próprio Ser (Jesus é Deus, lembra?). Mas também precisamos de um Mediador. Deus provê esse Mediador em Seu próprio Ser. “O que Cristo oferece Ele é”, diz a bela música dos irmãos Arrais. Tudo parte dEle. Tudo de graça. Tudo por amor.

Muito bem, mas precisamos voltar para a questão do cristão que comete pecado grave. Como essa doutrina nos ajuda a entender isso? O crente de verdade pode cair?

Vamos à Bíblia. Logo no início da Primeira Carta de João, temos a seguinte frase: “Escrevo essas coisas para que a alegria de vocês seja completa” (1 Jo. 1:4). “Ótimo”, você pode pensar, estou precisando de alegria na vida.  Porém, mais à frente, ele continua: “Meus filhinhos, escrevo essas coisas a vocês para que vocês não pequem” (1 Jo. 2:1). Espere um pouco. Agora temos um problema sério. Se eu terminar de ler essa carta, eu não vou mais pecar. É isso? Se você parar por aí, ficará louco.

Graças a Deus João escreveu mais: “Mas se alguém pecar, temos um Advogado junto ao Pai: Jesus Cristo, o justo”. Agora, associe isso às seguintes palavras de Hebreus: “Sabendo que temos um grande sumo sacerdote, Jesus, o Filho de Deus, que penetrou os céus, retenhamos a nossa confissão firmemente, pois não temos um sumo sacerdote que não possa compadecer-se de nossas fraquezas. Mas um que, como nós, foi tentado em tudo, mas sem pecado. Portanto, podemos nos aproximar do Trono da Graça com confiança, para recebermos misericórdia, acharmos graça e sermos socorridos no momento oportuno” (Hb. 4:14-15).

Como entender essas coisas?

É claro que o ideal de Deus é que você possa viver ao máximo sem pecar. É claro que quando um cristão comete um pecado grave, ele precisa entender que ele errou o alvo. É claro que Deus deixou a igreja a responsabilidade de aplicar a disciplina.

Mas nunca, nunca pense por um instante que um cristão sincero não pode mais pecar. Por maior que ele seja na fé, você precisa se lembrar de que os grandes heróis da Bíblia falharam muito. E, por Deus, não diga que para tais pessoas não existe salvação. Dizer ou pensar coisas assim é cuspir no Evangelho de Cristo. É desprezar a realidade da contínua ministração dEle por nós – e da nossa contínua necessidade dessa ministração.

E para você que sente que passou dos limites, que cometeu o pecado mais grave, que afundou na lama. Sim, especialmente para você que nem tem mais coragem de entrar em uma comunidade cristã, quero dizer que você pode se alegrar. Você tem um Sumo Sacerdote perfeito que não parou de lutar por você.

Sim, Ele já pagou completamente o preço desse pecado que você acabou de cometer naquela cruz. Conquanto você não desista de mirar no alvo certo, de andar no caminho de justiça, de tentar e de se esforçar para levantar depois da queda, você nunca estará sem solução.

E, em especial na Primeira Essência, você vai encontrar uma comunidade de pessoas pecadoras e degeneradas como você que foram salvas por Cristo. Posso dizer com certeza, pois sou um deles.

Lista de leitura sobre a Doutrina do Santuário:

– Introdutório: O Sacerdócio Expiatório de Jesus Cristo, por Frank B. Holbrook

– Intermediário: Tratado de Teologia Adventista, ed. Raoul Dederen, cap. 11

– Avançado: Questões Sobre Doutrina, seção VII

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