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Papai, você não me ama mais?

“Todas as coisas são amadas por Deus, mas nem todas são amadas do mesmo jeito por Deus” (Thomas C. Oden)

Recentemente, atendi um paciente que tinha por volta de oito anos. Conversando com seu pai, o mesmo me relatou algo muito interessante. Quando era contrariado ou corrigido, esse paciente havia recentemente aprendido a retrucar com o golpe baixo: “Papai, você não me ama mais?”.

Por mais engraçado que isso possa parecer, existem pessoas que realmente pensam assim. Elas creem que o amor aceita tudo. Mas será que é isso mesmo? Será que o Amor de Deus é demonstrado assim na Bíblia? Será que o Supremo Modelo do Amor permite algum tipo de avaliação das pessoas?

Para refletirmos sobre isso, convido você a pensar sobre a seguinte frase no livro de Provérbios:

“O Senhor detesta o sacrifício dos ímpios,

Mas a oração do justo o agrada.

O Senhor detesta o caminho dos ímpios,

Mas ama quem busca a justiça

(Pv. 15:8-9)

Observe com atenção os contrastes. Primeiro, somos informados de que Deus sente prazer na oração das pessoas justas, mas ele sente desgosto na adoração hipócrita e mecânica de pessoas falsamente cristãs. Depois, vemos algo mais nítido. De alguma forma, Deus ama a pessoa que busca a justiça. Em contrapartida, detesta o caminho (procedimento) das pessoas más.

É um texto muito claro, não é mesmo? Como podemos compreender isso? Como podemos compreender que em Deus pode haver amor e ódio, alegria e tristeza, prazer e desprazer direcionados a mesma pessoa?

É aqui que eu acho que o teólogo John Peckham fez mais uma excelente contribuição em seu livro. Ele propõe que, o que vemos em passagens como a que eu citei acima, é outro aspecto do Amor de Deus: o aspecto avaliativo.

Creio que você também acredita que Deus é um Ser Perfeito. Ele é santo, justo e bom. Ele é o padrão moral impecável. Pensando assim, fica mais fácil entender que Ele não pode simplesmente amar e “ficar de boa” ao ver algo que sai fora desse padrão moral.

Mas isso não significa necessariamente que Deus “deixa de amar” alguém quando essa pessoa faz algo errado, e “volta a amá-la” quando faz algo certo. Apesar de isso acontecer com certa frequência entre os seres humanos, essa é a última imagem que podemos ter de Deus. Ele não é inconstante.

Como entender essa ambivalência de Deus? Demorei um pouco para começar a entender isso – e talvez não tenha entendido completamente. Mas, com sua licença, vou tentar explicar onde cheguei até agora.

Creio que o cerne do nosso problema está em justamente fazermos confusão com a nossa ordem de observação. Observamos primeiro os relacionamentos humanos e nossa experiência. Então, tentamos encaixar o que está escrito na Bíblia dentro dessa experiência. Em outras palavras, tentamos encaixar as descrições do Amor de Deus dentro do conceito que nós já temos de “amor”. Você consegue enxergar o erro disso? Se Deus é o criador e modelo de tudo, o raciocínio deveria seguir a forma inversa.

Assim, o “jeitão” do Amor de Deus não é contraditório ou bagunçado. Ele é o “jeitão” original e perfeito do Criador de tudo. O que acontece é que Ele ama a pessoa, quer ter um relacionamento com ela, quer se alegrar com ela, quer que ela volte para Ele, quer vê-la feliz e plena. Mas, dependendo das escolhas que essa pessoa fizer, Ele poderá sentir sim desprazer, repulsa pelo modo de vida dela e até desgosto.

Então, quando Deus te mostrar pela Bíblia que você está errado em algum ponto da sua vida, não pergunte a ele: “Papai, você não me ama mais?”. Nunca mais pense isso. Pois, se Ele não te amasse certamente não se importaria com o que você faz da sua vida. Ele te ama sim, de forma absurda. A ponto de te buscar, insistir e implorar que você se arrependa e mude. Mas Ele não vai submeter Sua Santidade a nossa vontade.

Continuarei a falar sobre Amor de Deus em outros textos. Se você não leu ainda os primeiros dois textos, leia aqui http://blog.primeiraessencia.org/a-doutrina-mais-dificil/ e aqui http://blog.primeiraessencia.org/uma-paixao-arrebatadora/.

Sugestão de Leitura: A Difícil Doutrina do Amor de Deus, D. A. Carson

Fernando Monteiro

Olá. Meu nome é Fernando. Sou médico-residente em Psiquiatria. Gosto muito de ler. Meus temas preferidos são: Religião, Filosofia, Cultura, Política e Medicina.

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