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Quatro versos

A Bíblia está repleta de histórias sensacionais. Podemos lê-las nos mais variados livros desta incrível biblioteca. Ela apresenta um imenso banco de dados que mistura estilos e sensações por meio de belas histórias. Composta por drama, terror, suspense, comédia, poesia e tantos outros, sua leitura encanta e fascina. No entanto, é evidente que este não é seu objetivo primordial. Muito mais que uma coleção de entretenimento, seu estudo traz luz ao entendimento e clareza para o viver. O leitor mais atento – aquele que examina cuidadosamente esse livro – encontra valiosas lições que se mostram extremamente relevantes, quando a intenção é encontrar a plenitude da vida.

Uma dessas histórias é encontrada no livro de Marcos, capítulo 8, versos 22 ao 25. O texto é tão curto e rápido, que poucas vezes recebe a atenção que lhe é devida. Após Jesus multiplicar pães e peixes para alimentar uma multidão, Ele se dirige a um vilarejo próximo de Cafarnaum chamado Betsaida. Ali lhe trouxeram um cego, afim de que fosse curado. Nesse momento, Jesus resolve o problema daquele homem em duas etapas. Primeiro ele passa saliva nos olhos do cego, estende as mãos sobre ele e lhe pergunta: “Vês alguma coisa?” (Mc 8:23). O homem responde no verso 24: “Vejo as pessoas como árvores que andam.”. A história conta que novamente Cristo impôs-lhe as mãos, e só então ele passou a enxergar perfeitamente.

Não é incomum nos projetarmos no lugar do homem cego. Nossa dificuldade em acertar nas escolhas faz com que, numa frequência enfadonha, nos sintamos seres invisuais frente às decisões da vida. Além disso, referente ao futuro, somos sem sombra de dúvida cegos, tateantes buscando um rumo seguro a trilhar. Porém o processo intermediário permitido por Jesus, na cura daquele homem, é realmente intrigante. Por que Cristo não o curou no primeiro momento? O enfermo disse: “Vejo as pessoas como árvores que andam.”. Note que existe uma inferência moral aqui, a qual extrapola um possível caso físico severo de miopia, hipermetropia ou astigmatismo.

É preciso esclarecer que o texto não menospreza a importância das árvores, nem faz referências aos Ents – personagens criadas no universo fantasioso de J.R.R. Tolkien. A valer, algo fica pertinente na afirmação do cego. Quantas vezes você já enxergou as pessoas à sua volta como árvores? No trabalho, escola, faculdade, trânsito ou até mesmo em casa? Somos levados, pelo cotidiano desequilibrado de nossos dias, a ver pessoas como parte de uma paisagem. Destituídas de valor, sentimento, história e significância, nós às banalizamos ao ponto de sequer nos preocuparmos com atitudes basais como um singelo bom dia, um muito obrigado, ou um por favor.

Não se trata de ser indelicado ou inconveniente, mas sim parar de agir como se não existissem outros à nossa volta. Trata-se de respeitar, com amor, as opiniões e crenças divergentes da sua. Refere-se a, em tempos de modernidade líquida – conceito do sociólogo polonês Zygmunt Bauman –, estar devidamente atento ao rumo dos padrões sociais pós-modernos, mantendo são o limite entre o processo de construção coletiva e o individual. Estende-se a enxergar as pessoas como algo muito além de uma paisagem natural ou cultural. Se analisarmos com maior profundidade, veremos o absurdo da banalização humana no trânsito virtual da violência, que ocorre no viés imaginário de que as imagens compartilhadas não geram consequências às vitimas, ou a seus familiares. Vídeos íntimos, acidentes, mortes, pancadarias. Na verdade, nos variados meios de comunicação social, esses itens são interpretados de modo inconsequente e leviano. São consumidos com insensibilidade e desamor. Tornam-se partes de um entretenimento patológico, denegrido pela distorção que o pecado causou na visão humana, uma indiferença irracional.

Felizmente, quando a visão se torna distorcida, existe alguém que oferece a cura. Quanto mais toques nós recebemos de Jesus, isto é, quanto mais nos relacionamos com Ele – através do estudo da Bíblia e da oração diária – mais claro se torna nosso olhar. Mais altas se tornam nossas aspirações. Mais fácil fica discernir entre árvores e pessoas. Entre ser inconveniente e ser oportuno. Entre ser indiferente e ser amoroso. A história do encontro rápido entre um cego de Betsaida e Cristo, nos mostra a diferença entre as trevas da cegueira, a penumbra da visão distorcida e a clareza da luz. Lições inestimáveis apresentadas em quatro versos.

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